Os 50 Anos da 1ª Estrela: Um “Raio X” da Final de 1958.

10 de abr. de 2008

*Luciano de Souza - Departamento de Futebol ScoutOnline.
1- Panorama

Em junho de 2008 o Brasil comemora meio século de seu 1o título mundial de futebol.

A CBF negou, através de sua acessoria de impressa, que o amistoso “Brasil x Suécia” deste dia 26/03/2008 fosse um jogo comemorativo a esse aniversário histórico. Já a empresa detentora dos direitos de organização e comercialização do evento publicou em todas as mídias, e até mesmo nos ingressos da partida, a alusão à grande final de 1958.

De uma forma ou de outra, sendo ou não sendo proclamada como uma comemoração oficial, uma partida entre Brasil e Suécia, justamente 50 anos depois da conquista de nossa primeira Copa do Mundo, nos remete inevitavelmente a relembrar um pouco de nossa tão pouco difundida história futebolística. Assim, buscarei aqui um pequeno resgate das memórias e uma sintetizada análise do jogo final que marcou essa conquista cheia de méritos e de significados, numa Copa que entrou para a história como uma das mais importantes de todos os tempos.


3- Detalhes e Análises Técnico/Táticas da Final da Copa de 1958.

Choveu muito às vésperas daquele domingo, 29 de junho de 1958, no Estádio Råsunda – famoso estádio do AIK, em Estocolmo, local do jogo. O campo ficou encharcado, porém, o estado do gramado era considerado ainda satisfatório.

Tudo levava à crer que o Brasil teria grandes dificuldades nesta partida. Já no sorteio pra definição dos uniformes, uma vez que ambas as equipes usavam a cor amarela no seu uniforme número 1, o Brasil perdeu e foi obrigado à usar seu uniforme número 2, azul.


A Frase II
:

"Nós vamos vencer, vamos jogar com a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida.”

Paulo Machado de Carvalho, Chefe da Delegação Brasileira na Suécia-1958.

E os acontecimentos seguiram parecendo pender para o lado suéco. A equipe jogava em casa, com seu uniforme número 1 e em um gramado pesado que favorecia seu futebol pragmático ante ao futebol de técnica e habilidade dos brasileiros. Além disso, outra boa notícia aos suecos antes do jogo: Feóla, Técnico brasileiro, não teria o titular De Sordi para marcar Lennart (Nacka) Skoglund, a grande estrela do ataque sueco, mas sim o reserva Djalma Santos.

Tudo definido e, como ilustra a Figura 1, as equipes entrariam em campo com as seguintes formações:

Figura 1: Escalações e Formações Táticas:


*Na Copa de 1958 não eram permitidas substituições.

Começa a partida e, enquanto a equipe brasileira ainda se organizava em campo, o veterano suéco Liedholm faz bela jogada individual e abre o placar logo aos 4min. Neste momento, quando o gol suéco parecia ter sido a confirmação final de que ainda não seria naquele ano o tão sonhado triunfo em Copas, surge Didi – o “Príncipe Etíope” como era conhecido. Ele foi às redes do goleiro Gilmar, pegou a bola calmamente e levou-a até o centro do campo, caminhando sem nenhuma pressa, como se soubesse que aquele primeiro gol não teria sido nada mais que um “mero acidente” que seria facilmente contornado. Mais tarde, Didi comentaria o que lhe passou pela cabeça naquele momento.

A Frase III:

"O Botafogo tinha dado uma goleada na Suécia, e não ia ser a seleção brasileira que ia perder deles.”

Didi, Meio-Campista da Seleção Brasileira na Copa de 1958.

Após sair atrás no placar com aquele gol aos 4min de jogo, contrariando qualquer prognóstico, a seleção brasileira se encontrou em campo. Logo após à nova saída de bola, em jogada de Didi, Garrincha por muito pouco não empata. Demonstrando o ótimo preparo técnico, físico e psicológico, adquiridos com o planejamento perfeito executado pela nova Comissão Técnica, o Brasil dominaria amplamente o jogo e chegaria a um merecido 5x2 e, conseqüentemente ao título mundial.

Na Tabela 1 vemos os principais números do jogo “Brasil 5x2 Suécia” e, no Gráfico 1, podemos observar de forma mais facilmente visível as diferenças de aproveitamento nos principais fundamentos ofensivos e defensivos, destas duas seleções, nesta partida.

Como vemos nos dados acima, a seleção brasileira dominou amplamente a partida. As diferenças no número de passes certos e errados, a percentagem de posse de bola e as finalizações deixam bem nítidas a superioridade do Brasil no jogo.

O número de dribles certos e errados também chama muito à atenção se comparado a números do futebol atual. Ainda mais por se tratar de uma situação de final de Copa do Mundo, pode-se dizer que o número de tentativas de dribles era altíssimo naquele momento do futebol.

Outro aspecto importante de se apontar, analisando os gráficos de posse de bola e de evolução de passe certo, é a forte evidência de quão melhor estava preparada fisicamente a seleção brasileira.

Vide os Gráficos 2 e 3 abaixo:

Gráfico 2: Posse de Bola “BRA 5x2 SUE”.

(59'29'' de bola em jogo – 32'44'' de bola parada)

Gráfico 3: Evolução no Tempo - Passe Certo

As áreas assinaladas com elípses pontilhadas vermelhas indicam como o Brasil obteve um alto aproveitamento nestes fundamentos nos minutos finais de cada tempo da partida, enquanto a equipe sueca cai de produção de acordo com o passar do tempo. Isso é uma forte evidência de que a seleção brasileira havia adquirido bom preparo físico. Ou, ao menos, um preparo físico melhor que o da equipe sueca.

Nas finalizações, enquanto a equipe sueca finalizou apenas 4 vezes ao gol brasileiro (porém com um ótimo aproveitamento de 50% das mesmas), o Brasil chegou ao impressionante número de 28 finalizações. Ou seja, 24 a mais que seu adversário.

Veja na Figura 2 como se deram cada uma dessas finalizações:

Figura 2: Finalizações da equipe do Brasil


Já na Figura 3, observamos a área do campo onde ocorreu cada ação, de cada jogador da seleção brasileira. Nessa figura é possível verificar como se posicionava bem a equipe brasileira, utilizando praticamente todos os espaços do campo e procurando jogar no campo do adversário na maior parte do tempo.

Figura 3: Área de atuação dos jogadores do Brasil.

Detalhe especial pra a utilização dos “pontas”, Zagallo pela esquerda e Garrincha pela direita, como ilustram as Figuras 4 e 5. Nestas figuras estão a origem (marcada por um ponto) e o destino (marcado por uma bolinha de futebol) dos passes recebidos por esses dois jogadores durante o jogo final da Copa.

Essa formação tática com dois atacantes bem abertos, jogando muito próximo à linha lateral e buscando sempre a linha de fundo, era muito usada naquela época e, na seleção brasileira daquele momento, esses setores eram muito fortes. No jogo contra a Suécia, 3 dos 5 gols nasceram de jogadas realizadas pelos “pontas” brasileiros. Foram 2 assistências de Garrinha e 1 gol de Zagallo.

Atuando da forma exposta acima, e após um ótimo e inovador trabalho de organização e de preparação, a seleção brasileira chegaria em fim à conquista de sua 1ª estrela de campeã mundial.

Conhecer a história, o universo tático, os jogadores e tudo o que contribuiu na construção deste que hoje é o esporte mais difundido e consumido do mundo, deveria ser uma premissa básica para todos àqueles que trabalham ou pretendem trabalhar com o futebol.


A frase IV
:

“Agradeço as palavras dessa pessoa, mas... Eu não sei quem é Nilton Santos.”

Robinho, atacante do Real Madri, ao responder à um repórter o que achava da atitude de Nilton Santos (consagrado lateral esquerdo da seleção de 58 e do Botafogo-RJ) de ter dito publicamente que os árbitros deveriam “proteger o

Robinho” - enquanto ele ainda atuava pelo Santos - das entradas duras e desleais dos adversários.

É fato que pouco se publica com relação ao futebol jogado em outras décadas. E, pior… Quanto mais antigo o jogo, menos referências se encontra sobre ele. Porém, ao menos nos casos dos jogos mais importantes – como a da final da Copa de 58 – e sobre os grandes jogadores que marcaram cada qual a sua época, é necessário que se faça com que suas histórias não se percam.

Como já diria o poeta: “Conhecendo o passado, entendemos o presente e melhoramos o futuro.”

Eu, por exemplo, só ao conhecer Pelé e Garrincha jogando (através de jogos gravados) entendi o porquê desses dois serem os “mitos” que são hoje…


*Luciano de Souza - Departamento de Futebol ScoutOnline
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10 comentários:

Anônimo disse...

Maravilhosa análise. Recheada de informação interessante, de fatos históricos a dados específicos do jogo, sempre com muito conteúdo...não consegui desgrudar da tela enquanto não terminei o artigo...e aí queria mais. Imagino os jogadores relembrando estes momentos com estas informações em mãos...garanto que eles adorariam ler este artigo. Mais uma vez parabéns pela qualidade, está se tornando rotina!!!

Unknown disse...

Mais uma vez, gostei muito!
Parabéns pelo excelente trabalho!
Fiquei surpresa em saber que primeiro surgiram os psicólogos nas comissões técnicas e só depois os preparadores físicos! É isso mesmo ou me enganei? Não vi nenhum na lista da comissão técnica de 58.

Anônimo disse...

Gostei muito da análise, principalmente pela quantidade de informação coletada para reforçar a idéia.

É muito bom saber de jogos clássicos como esse para a comparação com os jogos atuais, e verificar as grandes diferenças entre eles.

Parabéns pelo excelente trabalho.

Anônimo disse...

Amigos,

Simplesmente sensacional. Histórico. Um dia alguém também não irá se lembrar de quem foi Robinho. Parece piada, mas é assim que funciona.

Abraços
Edu Lima

www.edulima.com.br
www.edulima.com.br/blog

Anônimo disse...

Boa análise, pra quem assim como eu não pode ver a final de 58 é um "prato cheio" sobre o que aconteceu na final e da uma idéia de como era jogado o futebol naquela época. Além disso, mostra como o futebol mudou em diversos aspectos nesses 50 anos que se passaram, e tende a mudar cada vez mais.


Henrique (FEAGRI)

Anônimo disse...

Muito bom artigo Luciano!
Espero que continue proporcionando para nós boas análises como essa, que retratam nosso lindo futebol do passado, aos que não tiveram o prazer de conhecer.

Obrigado!

Julio Cesar(FEAGRI)

Lucas Leonardo disse...

Achei interessante uma coisa, nos gráfico que mostra a atuação dos jogadores, percebi que o goleiro Gilmar possui algumas ações fora da grande área. Não sei se foi o ocorrido, mas ele realizaou algumação ação dessa natureza? Ou seria locais onde ele lançou uma bola numa reposição?
Abraços

Anônimo disse...

Ótimo artigo!!!
Parabéns Luciano!!!
Realmente esse foi um timaço, e o interessante é a atuação do Pelé que aparece em praticamente todos os lados do campo. Desde cedo já reinava em campo!!!
Abraço
Léo 02D

Clube do Futebol disse...

Reposta ao Lucas:

Os goleiros não realizaram ações foram da grande área! E você mesmo já matou a charada! Na nossa metodologia as reposições do goleiro são registradas no local onde a bola caiu! Bem observado!

Clube do Futebol

Anônimo disse...

Muito Boa análise Luciano!
Parabéns!
agora em off, tem como vc passar se telefone pra mim??
Beijos